segunda-feira, 12 de maio de 2008
Apreciem com moderação!!!!!
HUMILHAÇÃO
Causa
A humilhação resulta do fato de um indivíduo ser acusado diante de um terceiro, de ter cometido uma transgressão ou de não ser detentor de certas qualidades ou competências valorizadas pelo grupo. Como o ser humano possui uma grande necessidade de pertencer a um grupo social, esse tipo de acusação representa um risco de ostracismo para o indivíduo humilhado uma vez que sua imagem pública (status dentro do grupo) sofre um abalo.
Assim, fatores como rebaixamento público excessivo e impressão de não merecimento por parte daquele que é humilhado são condições para que se caracterize uma experiência de humilhação e vários podem ser seus desencadeadores, entre eles: bronca, insulto, deboche, discriminação, desconsideração, enganação, riso, vergonha de terceiros e exposição pública.
Filogênese
Sendo as emoções autoconscientes prováveis mecanismos de condução dos indivíduos ao respeito às regras e normas sociais, os conflitos intergrupais gerados por experiências de humilhação poderiam ter funcionado como uma forma de colocar à prova as vantagens das situações de homeostase (equilíbrio) social. Assim, a humilhação poderia ter resultado em conseqüências adaptativas, ao testar as situações de equilíbrio social reguladas por emoções como a vergonha e a culpa.( Pereira , 2002)
Ontogênese
As emoções autoconscientes não possuem um eliciador específico e sim requerem classes de acontecimentos que só podem ser percebidas pelo próprio indivíduo (Lewis, 1993). Ou seja, tais emoções relacionam-se à cognição e à necessidade de o indivíduo ter adquirido autoconsciência e de se enxergar como um objeto social capaz de distinguir normas, avaliar os próprios comportamentos em relação a essas normas e de focar em si mesmo.
A humilhação, portanto, só pode ser experimentada a partir dos cinco anos de idade, quando já ocorreu um certo desenvolvimento cognitivo.
Função Adaptativa
O grupo deparou-se com a dificuldade de encontrar referências bibliográficas que apontassem uma função adaptativa específica e comprovada para a humilhação.
Uma hipótese levantada por Pereira (2002) em sua tese de mestrado foi a de que a humilhação teria como função o aumento da coesão grupal. Segundo ele, a humilhação externa quando compartilhada por indivíduos de um mesmo grupo, tenderia a uni-lo, pois sabe-se que quando um grupo se sente muito ameaçado por outro – inimigo comum – seus integrantes tendem a superar suas diferenças.
Entretanto, após um extenso trabalho de pesquisa e discussão, surgiu no grupo a idéia de uma possível explicação funcional para o comportamento de humilhação. A tese formulada foi a de que a humilhação seria uma forma de angariar apoio emocional e promover a inclusão da vítima em um grupo ligado à pessoa que lhe ofereceu apoio. Isso se daria ao permitir que aquele que sofreu a humilhação e aquele que o apoiou acabassem por se unir, aumentando, assim, suas chances de sucesso reprodutivo e de sobrevivência.
Na tentativa de comprovar tal tese, realizou-se uma pesquisa de campo através de um questionário composto de 3 perguntas no seguinte formato:
Sexo ( ) F ( ) M Idade:
1. O que você sentiu ao passar por uma experiência de humilhação? Atribua notas de 1 (mais fraco) a 5 (mais intenso) aos sentimentos que julgar pertinentes.
( ) raiva ( ) tristeza ( ) sensação de injustiça
( ) vergonha ( ) desejo de vingança
2. Você recebeu apoio de alguém que presenciou a situação?
( ) sim ( ) não
3. Você manteve proximidade com essa pessoa?
( ) sim ( ) não
Esse questionário foi aplicado a 30 pessoas (15 homens e 15 mulheres) de diferentes faixas etárias (de 16 a 63 anos) e municípios paulistas (São José dos Campos, São Paulo e Sorocaba). Cada integrante do grupo se encarregou de entrevistar 10 pessoas da forma mais abrangente possível quanto a idade, classe social e escolaridade, a fim de fazer com que a pesquisa permitisse uma visão geral a respeito de como o ser humano reage à humilhação.
No que se refere à questão do apoio, verificou-se que 70% (N=21) das pessoas entrevistadas receberam apoio de alguém que presenciou a cena de humilhação.
Notou-se também que esse suporte foi recebido na mesma proporção por homens (48%, N=10) e mulheres (52%, N=11).
No entanto, o não recebimento de apoio se deu de maneira desigual entre homens (67%, N=6) e mulheres (33%, N=3).
Além disso, constatou-se que dentre essas pessoas que receberam apoio, 86% (N=18) mantiveram proximidade, pelo menos durante um certo período da vida, com aquelas que as apoiaram.
É interessante ainda notar que, para três dessas pessoas, esse primeiro contato foi tão importante, que os laços decorrentes dele foram mantidos até hoje. Para o restante delas, esse contato serviu apenas para que não permanecessem sozinhas após o episódio: quando puderam encontrar um grupo social com o qual tivessem maior afinidade, em certo grau abandonaram o apoiador. Um caso relevante foi o de uma garota que disse ter sido humilhada na sala de aula por todos os colegas. A professora, comovida, decidiu mudá-la de sala e colocá-la em uma outra onde mais tarde ela pôde encontrar um novo grupo, com o qual afirma manter contato até hoje, passados mais de 9 anos desde o ocorrido. Outra história que chamou bastante a atenção na pesquisa por ser o oposto da história da garota, foi a de um senhor. Ele contou que estava com seus colegas, em um time de pouca expressão, participando de um campeonato de futebol, quando o técnico do time adversário humilhou não somente ele, como também todo o time ao qual pertencia. Nesse caso, todos os jogadores do time humilhado serviram de apoio um para o outro. Depois desse dia e dessa vitória, o time decidiu, ganhando ou perdendo, sempre ir tomar uma cerveja no bar mais próximo.
Idéias de pesquisas relacionadas à humilhação que, por falta de tempo hábil não puderam ser realizadas, incluem a verificação da possibilidade de variação significativa quanto à manutenção de contato entre a vítima e aquele que lhe oferece apoio, em diferentes classes sociais, faixas etárias e níveis de escolaridade.
Bibliografia
Pereira, Yevaldo Lemos. (2003).Conseqüências adaptativas e diferenciação de emoções autoconscientes : embaraço, vergonha e humilhação.
Gente nosso filho foi boicotado pelo blog e os nossos belos graficos nao estao aparecendo,por isso estamos mandando para todos uma copia exclusiva do nosso trabalho!!!!!
domingo, 27 de abril de 2008
Embaraço
A vergonha tem o aspecto cognitivo de se ter transgredido uma regra, já no embaraço o incômodo está ligado ao fato de os outros saberem dessa transgressão. Ambos são causados pela situação e exatamente por isso diferem da timidez que é um traço de personalidade (Darwin, 1872; apud Paul Ekman, 1973). A outra diferença entre vergonha e embaraço está na quantidade e intensidade de sorrisos que cada uma delas provoca, sendo estes mais presentes e mais intensos no segundo do que no primeiro (Lewis, 1992; 1995; Miller, 1995; apud Pereira, 2002).
A vergonha é, por natureza, uma emoção moral de caráter aversivo, por fazer o indivíduo fugir da exposição (Barrett,1995; Fischer & Tangney, 1995; Tangney et al., 1996; apud Pereira, 2002), sendo fácil entender a vantagem da utilização de comportamentos próprios ao embaraço, como o sorriso, para apaziguar transgressões leves, mesmo quando não há certeza de que essas transgressões foram observadas (Pereira, 2002).
O sorriso não somente é universal, presente em todas as culturas humanas, como também pode ser identificado em alguns primatas não-humanos, particularmente o chimpanzé (Otta, 1994; apud Pereira, 2002). O rhesus, um primata mais distante do homem que o chimpanzé em filogenia, também possui uma exposição dos dentes silenciosa que pode ser interpretada como sinal de apaziguamento (Hinde, 1994; Otta, 1990; apud Pereira, 2002).
Não só o sorriso como a manifestação de embaraço propriamente dita também pode ser identificada em todas as culturas humanas e em outros animais, inclusive em não-primatas, tal como é observado por Masson & Mc Carthy (2001) no seguinte caso:
“Em um oceanário (onde os animais nunca eram punidos), um golfinho de nariz-de-garrafa, Wela, era treinada a pular fora da água e pegar peixes da mão de uma pessoa. Um dia, quando essa proeza estava sendo fotografada, a treinadora Karen Pryor distraiu-se e esqueceu de deixar cair o peixe como sempre fazia. Em conseqüência, quando Wela pegou o peixe, inadvertidamente, mordeu a mão de Pryor. Wela parecendo ‘imensamente embaraçada’, foi para o fundo do tanque, colocou o focinho em um canto e não veio para fora até que Pryor entrou na água, acariciando-a e adulou-a até ela se acalmar.”
Apesar do exemplo acima citado, é complicado falar nesse tipo de emoção em não-primatas, já que ainda há muita divergência sobre a existência ou não de autoconsciência nesses animais. Em primatas já é mais seguro falar nesse tipo emoção, como pode ser demonstrado na seguinte observação de uma chimpanzé descrita por Masson & Mc Carthy (2001) também:
“A chimpanzé Washoe foi vista enquanto cometia um erro similar [ao da Wela], ameaçando um velho amigo (que tinha crescido dez ou doze centímetros, desde a ultima vez que haviam se encontrado) antes de reconhecer quem era, reagindo com o que seria chamado de embaraço, se Washoe fosse humana.”
Muitos poderiam alegar que tal comportamento é simplesmente um ritual de subordinação, mas então a mesma descrição poderia aplicar-se a uma desculpa, no caso de um ser humano embaraçado (Masson & Mc Carthy, 2001).
Ontogênese
Segundo Otta (1994; apud Pereira, 2002), o sorriso já apareceria nas crianças nos primeiros meses de vida, mesmo ainda não sendo possível vinculá-lo ao embaraço. Ele já estaria desempenhando um papel de atratividade social, no sentido dado por Gilbert (1997; apud Pereira, 2002), devido à maneira como os pais são sensíveis ao sorriso logo no inicio, com a função de gerar apego e receber cuidados.
Entre um ano e dois anos de vida, algumas crianças se caracterizam por timidez acentuada, o que reflete um componente mais biológico (Lewis, 1995; apud Pereira, 2002). O sorriso dessas crianças ainda não significaria embaraço, segundo Darwin (1872; apud Paul Ekman, 1973), já que este surge como resultado de uma falta cometida da qual se tem consciência e que é exposta aos outros. Essa consciência de si dependeria, portanto, de certo desenvolvimento cognitivo. Crianças vivenciariam o embaraço, de acordo com Lewis (1995; apud Pereira, 2002), somente em torno dos três anos de idade, período em que ele considera emergir as emoções conscientes auto-avaliativas. Tal período coincide com as observações de Darwin (1872; apud Paul Ekman, 1973), quanto à emergência do enrubescimento em crianças.
Barret (1995; apud Pereira 2002), no entanto, contrapõe-se a esta idéia, não acreditando na necessidade de cognição mais desenvolvida para o inicio do embaraço e da vergonha. Já Nathanson (1987; apud Pereira, 2002), fala de uma forma de vergonha primitiva que ocorreria em torno de um ano de idade, época que coincide com a idéia do aparecimento da timidez segundo Lewis (1995; apud Pereira, 2002). Freud (1905/1965; apud Pereira, 2002), está entre os autores que colocam o surgimento da vergonha mais tardiamente: iniciaria durante o período de latência, após os seis anos.
Mecanismos Causais
A exibição do embaraço caracteriza-se pela presença do sorriso (Miller, 1995; Lewis, 1995; apud Pereira, 2002), do enrubescimento (Jong, 1999; Leary, 1992; Lewis, 1995; apud Pereira, 2002), como também de movimentos constantes dos olhos e tentativa de se esconder, abaixando ou escondendo o rosto ou o olhar acompanhado de rubor (Darwin, 1872; apud Paul Ekman, 1973).
Segundo Paul Ekman (2003), não é possível, porém, distinguir uma única expressão que caracterize o embaraço, e o rubor não pode ser considerado como tal, uma vez que não acontece em todas as pessoas (em negros, por exemplo). Existe, no entanto, uma seqüência de expressões que caracterizam o embaraço. Talvez isso se deva por ter essa emoção aparecido mais tardiamente na nossa história evolutiva e, portanto não tenha dado tempo de uma expressão eficiente ter sido desenvolvida.
A curto prazo, a pessoa que comete uma “gafe”, ou seja, faz algo que acredita que será julgado de forma negativa pelos outros, tende a olhar a sua volta para verificar se alguém notou a situação que lhe causou embaraço, fica nervosa, sorri, fica “sem graça”, sem saber o que fazer para disfarçar o seu constrangimento, o que causa a ela ainda mais nervosismo (Pereira, 2002).
A longo prazo, a pessoa que sofre uma série de situações embaraçosas passa a se vigiar mais e adquire maior autoconsciência por prestar mais atenção em suas atitudes na sociedade e controlá-las mais (Pereira, 2002).
Já Darwin (1872; apud Masson & Mc Carthy, 2001) considerava o rubor a evidência primária do embaraço e “a mais peculiar e a mais humana de todas as expressões”, alegando que pessoas de todas as raças enrubescem e que isso não é aprendido, já que pessoas que nasceram cegas também o fazem. Porém, pensava que a função do enrubescimento talvez não fosse visual, ou pelo menos não completamente, já que esse fenômeno não precisa ser visível. Muitas pessoas sentem apenas o formigamento da pele característico desse cenário sem avermelhamento visível, explicando, assim, porque os negros não ficam aparentemente vermelhos apesar de apresentarem esse fenômeno mesmo assim.
Função adaptativa
A função estaria relacionada ao cuidado com sua imagem pública, influenciando seu nível de atratividade social, tão importante para a aceitação e, indiretamente, para o sucesso reprodutivo. Mas podemos considerar conseqüências grupais também, pois um grupo em que as pessoas seguem mais as normas poderia ser um grupo mais coeso, com mais desenvolvimento, o que também aumentaria sua chance de sobrevivência (Pereira, 2002).
Ao enrubescer, o embaraçado comunica que percebeu sua gafe e se importa com o que fez e com sua imagem perante os outros, mostrando dividir os mesmo valores sociais que estes (Castelfranchi and Poggi, 1990; apud Miller, 1995). Em um experimento conduzido por Semin e Manstead (1982; apud Pereira, 2002), sujeitos que assistiram aos vídeos de um comprador em uma loja em que este derrubava uma pilha de rolos de papel, avaliaram-no melhor quando este aparecia embaraçado, e melhor ainda quando este reparava a pilha de rolos.
O embaraço serve, portanto, como um pedido de desculpa não verbal para que as circunstâncias que o causaram não se tornem tão ruins quanto o embaraçado sente que são, tendo como objetivo evitar uma má avaliação social do indivíduo pela clara demonstração de seu desapontamento com a situação (Gibbons, 1990; apud Miller, 1995). A reação de “ficar vermelho” ( Leary & Meadows, 1991 apud Miller) e o sorriso, ao produzirem apaziguamento (Otta, 1994; apud Pereira, 2002) e ao despertarem afetos positivos (Otta, Abrosio e Hoshino, 1996; apud Pereira, 2002), trabalham no papel de feedback negativo, suavizando os efeitos de um eventual feedback positivo perigoso, proveniente, por exemplo, da censura de outros indivíduos (Pereira, 2002).
Goffman (1967; apud Miller, 1995) argumenta que o embaraço muitas vezes envolve todas as pessoas presentes. Quando um indivíduo se encontra numa situação que o faz enrubescer, os outros presentes geralmente também enrubescem ou então participam das suas reações de apaziguamento da situação, dizendo, por exemplo, que sua situação não é única ou incomum, podendo utilizar frases como “eu sei como você se sente, isso sempre acontece comigo” para amenizar a situação de embaraço do outro (Cupach & Metts, 1990; apud Miller, 1995).
O desejo de evitar o embaraço serve para guiar a convivência entre as pessoas sendo um importante controle social (Gibbons, 1990; apud Miller, 1995) e, ao evitar um conflito, o embaraço estará contribuindo para a homeostase da sociedade (Pereira, 2002). Por isso, apesar de ser uma emoção incômoda, o embaraço é importante para que possamos superar e concertar as armadilhas inevitáveis da vida em grupo (Miller, 1995).
Referências Bibliográficas
PEREIRA, Yevaldo Lemos (2002). Conseqüências adaptativas e diferenciação de emoções autoconscientes: embaraço, vergonha e humilhação. São Paulo. Dissertação de Mestrado Instituto de Psicologia. USP.
MASSON, Jeffrey Moussaieff, CARTHY, Susan Mc (2001). Quando os elefantes choram.
EKMAN, Paul (1973). Darwin and facial expression; a century of research in review edited by Paul Ekman.
EKMAN, Paul (2003). Emotions revealed recognizing faces and feelings to improve communication and emotional life Paul Ekman.
TANGNEY, June Price & FISHER, Kurt W. (1995). Self-conscious emotions the psychology of shame, guilt, embarrassment, and pride.
terça-feira, 22 de abril de 2008
sábado, 12 de abril de 2008
segunda-feira, 31 de março de 2008
Introdução
...são emoções auto-conscientes - despertam nos indivíduos a consciência de si mesmo.
...são possíveis respostas a situações de erro.
Culpa
CULPA
A culpa é uma emoção que surge da percepção de que um comportamento foi inadequado em relação às regras do grupo em que o indivíduo se insere.
Mosher (1989) aponta que a culpa é uma expectativa generalizada de punição pela violação, concretizada ou não, dos padrões de comportamento morais. Assim, a culpa representaria muito mais uma predisposição cognitiva do que um estado afetivo puro.
CAUSA
Sendo uma emoção autoconsciente, a culpa requer uma série de eventos cognitivos para ser desencadeada. Esses eventos dizem respeito basicamente a uma avaliação que o indivíduo faz de si mesmo em relação às regras morais do grupo em que está inserido.
Na culpa, a ênfase principal recai em um comportamento específico, que aparece como sendo negativo ou transgressor das expectativas grupais. A sensação negativa da culpa e autocrítica relaciona-se, portanto, a uma ação ou padrão de ação específico.
É importante notar que, por causa disso, a culpa é uma emoção menos devastadora do que a vergonha, que envolve uma avaliação negativa do eu como um todo. Numa experiência de culpa, o senso da própria competência pode se manter intacto. Esse fato é importante, pois desencadeará respostas comportamentais distintas para as duas emoções, o que, por sua vez, determinará diferentes funções adaptativas.
Outra avaliação cognitiva necessária para o desencadeamento de uma experiência de culpa diz respeito à habilidade refinada de inferir os estados mentais de outra pessoa. Tendo adquirido a capacidade de realizar isso, o indivíduo se colocará no lugar do outro e imaginará o que ele sente ou pensa e, portanto, como julga a ação supostamente transgressora que foi realizada.
Finalmente, consciente dos estados mentais desencadeados em outras pessoas por sua ação ou dos prejuízos causados, o indivíduo pode antecipar conseqüências e acontecimentos subseqüentes.
Toda essa série de eventos cognitivos complexos são pré-requisitos para o desencadeamento da culpa.
É importante assinalar, no entanto, que alguns pesquisadores, como Barrett (1995) , apontam para uma experiência muito rudimentar de culpa já presente em bebês a partir dos três meses de vida. Essa experiência seria desencadeada pela contingência prazer-desprazer, seguida da percepção, também muito primária, de que um comportamento específico foi eficaz ou não, o que, por sua vez, induziria uma representação de si mesmo e do outro como “bom” ou “ruim”.
FUNÇÃO
Muito se tem falado sobre a culpa, sendo que, em geral, essa emoção aparece relacionada a certas disfunções psicopatológicas e de comportamento. De fato, tanto a presença de um comportamento de culpa excessivo quanto a ausência da culpa não são benéficos.
Mas a depender da sua “dosagem” e das ações e decisões subseqüentes tomadas pelo indivíduo, a culpa tem importante papel funcional, podendo ser tanto um regulador dos processos sociais de um grupo quanto do desenvolvimento do indivíduo.
De modo geral, a culpa contribui para a manutenção de boas relações interpessoais, promovendo comportamentos reguladores como reparação de erros, reconciliação, comunicação do conhecimento das regras do grupo e do desejo de segui-las, inibição de comportamentos amorais ou anti-sociais que colocam em risco a coesão grupal.
Segundo De Rivera (1989), a culpa será positiva quando levar o indivíduo a focar o bem-estar ou o ponto de vista de outras pessoas e será negativa quando o foco recair sobre o próprio ego. Essa linha de pensamento propõe que a culpa é adaptativa se ela eliciar uma preocupação genuína com as pessoas que foram prejudicadas.
O desconforto causado pela culpa também promove importantes regulações intrapsíquicas. O indivíduo desenvolve a consciência de si mesmo e uma reflexão crítica acerca de suas ações enquanto agente social. A culpa dirige o comportamento do indivíduo impelindo-o a fazer coisas que são socialmente aceitas e a evitar aquilo que não tem aprovação social (Tangney e Dearing, 2002). Nesse sentido, há um esforço para desenvolver as qualidades que o grupo elegeu como positivas e para conter comportamentos que poderiam criar conflitos.
ONTOGÊNESE
Desde muito cedo as crianças mostram-se responsivas às emoções (e, em particular, à tristeza) de outras pessoas. No segundo ano de vida é comum que fiquem preocupadas ao perceberem que o outro está triste e, a partir daí, vão gradualmente estabelecendo conexões entre seu próprio comportamento e as expressões emotivas observadas em outras pessoas, sejam elas pais, cuidadores ou amigos.
Mascolo e Fisher (1995) descreveram a seguinte seqüência do desenvolvimento da atribuição de culpa para si mesmo:
- De 7 a 8 meses a criança apenas sente tristeza pelo transtorno causado a outra pessoa. Ela consegue relacionar uma ação agressiva sua, como, por exemplo, ter batido em outra criança, com a expressão de tristeza do outro.
- Com 1 ano e meio a criança já estabelece relações entre comportamentos inadequados mais sutis, como, por exemplo, ter criticado outra criança ou ter se recusado a fazer o que lhe pediam, e as expressões emotivas dos outros. A tristeza que ela sentia nessas ocasiões começa a se diferenciar e surgem as primeiras experiências de culpa.
- Entre 19 e 24 meses aumenta significativamente o número de comportamentos reparativos pró-sociais e algumas crianças começam até mesmo a verbalizar pedidos de desculpas espontâneos.
- À medida que representações mais elaboradas dos outros vão sendo construídas, a criança pode perceber as demandas de reciprocidade social e culpa-se quando não as atende. É o que acontece, por exemplo, ao brincar com os jogos de um amigo e depois não querer emprestar os seus. Isso acontece entre 4 e 5 anos.
- Entre 6 e 8 anos surge a culpa por deixar de cumprir uma promessa
- Só aos 10 anos é que aparece a culpa decorrente da transgressão de uma norma moral mais abstrata, como, por exemplo, quando o indivíduo comporta-se de modo inadequado no que diz respeito às diferentes formas de tratar as pessoas.
- Entre 14 e 17 anos surge a comparação do próprio comportamento com o dos amigos. A culpa pode emergir, então, quando o indivíduo percebe que não é tão eficiente quanto outro em, por exemplo, cumprir suas obrigações, dedicar-se a uma atividade do grupo ou da escola ou respeitar as regras sociais.
FILOGÊNESE
Ao contrário da vergonha que leva o indivíduo a querer evitar o contato social, a culpa é responsável por manter os membros de um grupo positivamente engajados em situações interpessoais. Segundo Tangney (1995), a culpa gera motivações construtivas e estimula o contato social para a efetivação de ações corretivas e reparadoras dos danos causados.
Comportamentos como esses aparecem também em sociedades de primatas. Frans de Waal (2000), observando por muitos anos comunidades de chimpanzés e gorilas, listou uma série de comportamentos conciliatórios e empáticos, que se não são exatamente a expressão de um sentimento de culpa, no mínimo, constituem a base para que o mesmo se desenvolva em seres mais complexos como os humanos.
Quatro tipos de comportamento - empatia, capacidade de aprender e seguir regras sociais, reciprocidade e desejo de fazer as pazes - são a base da sociabilidade e estão presentes nesses animais. A moralidade humana e as emoções morais teriam nascido, portanto, da sociabilidade primata e seriam apenas mais refinadas que a desses animais.
As vantagens que todas as emoções morais como a culpa trazem tanto para o indivíduo quanto para o grupo social são indicativas de que essas emoções teriam sido selecionadas positivamente ao longo do processo evolutivo.
Para o indivíduo, os comportamentos desencadeados pela culpa garantem que ele consiga se manter no seu grupo social mesmo tendo transgredido regras. Protegendo-se do ostracismo ele melhora suas chances de sobrevivência e reprodução.
Para o grupo, as vantagens são a manutenção da harmonia, o que permite um trabalho coeso pela sobrevivência, e o alívio do estresse. Este último fator evita um grande desgaste físico e emocional relacionado à necessidade de se manter sempre em alerta para situações de conflito, o que deixaria o grupo como um todo muito mais vulnerável.