segunda-feira, 31 de março de 2008

Introdução

Embaraço, vergonha, humilhação e culpa...
...são emoções auto-conscientes - despertam nos indivíduos a consciência de si mesmo.
...são possíveis respostas a situações de erro.

Culpa

CULPA
A culpa é uma emoção que surge da percepção de que um comportamento foi inadequado em relação às regras do grupo em que o indivíduo se insere.
Mosher (1989) aponta que a culpa é uma expectativa generalizada de punição pela violação, concretizada ou não, dos padrões de comportamento morais. Assim, a culpa representaria muito mais uma predisposição cognitiva do que um estado afetivo puro.

CAUSA
Sendo uma emoção autoconsciente, a culpa requer uma série de eventos cognitivos para ser desencadeada. Esses eventos dizem respeito basicamente a uma avaliação que o indivíduo faz de si mesmo em relação às regras morais do grupo em que está inserido.
Na culpa, a ênfase principal recai em um comportamento específico, que aparece como sendo negativo ou transgressor das expectativas grupais. A sensação negativa da culpa e autocrítica relaciona-se, portanto, a uma ação ou padrão de ação específico.
É importante notar que, por causa disso, a culpa é uma emoção menos devastadora do que a vergonha, que envolve uma avaliação negativa do eu como um todo. Numa experiência de culpa, o senso da própria competência pode se manter intacto. Esse fato é importante, pois desencadeará respostas comportamentais distintas para as duas emoções, o que, por sua vez, determinará diferentes funções adaptativas.
Outra avaliação cognitiva necessária para o desencadeamento de uma experiência de culpa diz respeito à habilidade refinada de inferir os estados mentais de outra pessoa. Tendo adquirido a capacidade de realizar isso, o indivíduo se colocará no lugar do outro e imaginará o que ele sente ou pensa e, portanto, como julga a ação supostamente transgressora que foi realizada.
Finalmente, consciente dos estados mentais desencadeados em outras pessoas por sua ação ou dos prejuízos causados, o indivíduo pode antecipar conseqüências e acontecimentos subseqüentes.
Toda essa série de eventos cognitivos complexos são pré-requisitos para o desencadeamento da culpa.
É importante assinalar, no entanto, que alguns pesquisadores, como Barrett (1995) , apontam para uma experiência muito rudimentar de culpa já presente em bebês a partir dos três meses de vida. Essa experiência seria desencadeada pela contingência prazer-desprazer, seguida da percepção, também muito primária, de que um comportamento específico foi eficaz ou não, o que, por sua vez, induziria uma representação de si mesmo e do outro como “bom” ou “ruim”.

FUNÇÃO
Muito se tem falado sobre a culpa, sendo que, em geral, essa emoção aparece relacionada a certas disfunções psicopatológicas e de comportamento. De fato, tanto a presença de um comportamento de culpa excessivo quanto a ausência da culpa não são benéficos.
Mas a depender da sua “dosagem” e das ações e decisões subseqüentes tomadas pelo indivíduo, a culpa tem importante papel funcional, podendo ser tanto um regulador dos processos sociais de um grupo quanto do desenvolvimento do indivíduo.
De modo geral, a culpa contribui para a manutenção de boas relações interpessoais, promovendo comportamentos reguladores como reparação de erros, reconciliação, comunicação do conhecimento das regras do grupo e do desejo de segui-las, inibição de comportamentos amorais ou anti-sociais que colocam em risco a coesão grupal.
Segundo De Rivera (1989), a culpa será positiva quando levar o indivíduo a focar o bem-estar ou o ponto de vista de outras pessoas e será negativa quando o foco recair sobre o próprio ego. Essa linha de pensamento propõe que a culpa é adaptativa se ela eliciar uma preocupação genuína com as pessoas que foram prejudicadas.
O desconforto causado pela culpa também promove importantes regulações intrapsíquicas. O indivíduo desenvolve a consciência de si mesmo e uma reflexão crítica acerca de suas ações enquanto agente social. A culpa dirige o comportamento do indivíduo impelindo-o a fazer coisas que são socialmente aceitas e a evitar aquilo que não tem aprovação social (Tangney e Dearing, 2002). Nesse sentido, há um esforço para desenvolver as qualidades que o grupo elegeu como positivas e para conter comportamentos que poderiam criar conflitos.



ONTOGÊNESE
Desde muito cedo as crianças mostram-se responsivas às emoções (e, em particular, à tristeza) de outras pessoas. No segundo ano de vida é comum que fiquem preocupadas ao perceberem que o outro está triste e, a partir daí, vão gradualmente estabelecendo conexões entre seu próprio comportamento e as expressões emotivas observadas em outras pessoas, sejam elas pais, cuidadores ou amigos.
Mascolo e Fisher (1995) descreveram a seguinte seqüência do desenvolvimento da atribuição de culpa para si mesmo:

  • De 7 a 8 meses a criança apenas sente tristeza pelo transtorno causado a outra pessoa. Ela consegue relacionar uma ação agressiva sua, como, por exemplo, ter batido em outra criança, com a expressão de tristeza do outro.
  • Com 1 ano e meio a criança já estabelece relações entre comportamentos inadequados mais sutis, como, por exemplo, ter criticado outra criança ou ter se recusado a fazer o que lhe pediam, e as expressões emotivas dos outros. A tristeza que ela sentia nessas ocasiões começa a se diferenciar e surgem as primeiras experiências de culpa.
  • Entre 19 e 24 meses aumenta significativamente o número de comportamentos reparativos pró-sociais e algumas crianças começam até mesmo a verbalizar pedidos de desculpas espontâneos.
  • À medida que representações mais elaboradas dos outros vão sendo construídas, a criança pode perceber as demandas de reciprocidade social e culpa-se quando não as atende. É o que acontece, por exemplo, ao brincar com os jogos de um amigo e depois não querer emprestar os seus. Isso acontece entre 4 e 5 anos.
  • Entre 6 e 8 anos surge a culpa por deixar de cumprir uma promessa
  • Só aos 10 anos é que aparece a culpa decorrente da transgressão de uma norma moral mais abstrata, como, por exemplo, quando o indivíduo comporta-se de modo inadequado no que diz respeito às diferentes formas de tratar as pessoas.
  • Entre 14 e 17 anos surge a comparação do próprio comportamento com o dos amigos. A culpa pode emergir, então, quando o indivíduo percebe que não é tão eficiente quanto outro em, por exemplo, cumprir suas obrigações, dedicar-se a uma atividade do grupo ou da escola ou respeitar as regras sociais.

    FILOGÊNESE
    Ao contrário da vergonha que leva o indivíduo a querer evitar o contato social, a culpa é responsável por manter os membros de um grupo positivamente engajados em situações interpessoais. Segundo Tangney (1995), a culpa gera motivações construtivas e estimula o contato social para a efetivação de ações corretivas e reparadoras dos danos causados.
    Comportamentos como esses aparecem também em sociedades de primatas. Frans de Waal (2000), observando por muitos anos comunidades de chimpanzés e gorilas, listou uma série de comportamentos conciliatórios e empáticos, que se não são exatamente a expressão de um sentimento de culpa, no mínimo, constituem a base para que o mesmo se desenvolva em seres mais complexos como os humanos.
    Quatro tipos de comportamento - empatia, capacidade de aprender e seguir regras sociais, reciprocidade e desejo de fazer as pazes - são a base da sociabilidade e estão presentes nesses animais. A moralidade humana e as emoções morais teriam nascido, portanto, da sociabilidade primata e seriam apenas mais refinadas que a desses animais.
    As vantagens que todas as emoções morais como a culpa trazem tanto para o indivíduo quanto para o grupo social são indicativas de que essas emoções teriam sido selecionadas positivamente ao longo do processo evolutivo.
    Para o indivíduo, os comportamentos desencadeados pela culpa garantem que ele consiga se manter no seu grupo social mesmo tendo transgredido regras. Protegendo-se do ostracismo ele melhora suas chances de sobrevivência e reprodução.
    Para o grupo, as vantagens são a manutenção da harmonia, o que permite um trabalho coeso pela sobrevivência, e o alívio do estresse. Este último fator evita um grande desgaste físico e emocional relacionado à necessidade de se manter sempre em alerta para situações de conflito, o que deixaria o grupo como um todo muito mais vulnerável.